O TRIBUNAL DO GRAU 31 – O TRIBUNAL FÊMICO – A SANTA VEHME

SUP. CONS. DO BRASIL DO GR. 33

PARA O R. E. A. A.

DELEGACIA LITÚRGICA DE BRASÍLIA

CONSIST. DE PRINC. DO REAL SEGREDO No 16

 

TRABALHO DESTINADO AO GRAU 32

 

O TRIBUNAL DO GRAU 31 – O TRIBUNAL FÊMICO – A SANTA VEHME

 

 

Autor: Rubi Germano Rodrigues

IME 065.166

CIM 196.900

Abril/2010 


O TRIBUNAL DO GRAU 31 – O TRIBUNAL FÊMICO – A SANTA VEHME

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO……………………………………………………………………………………………. 02
2 A SANTA VEHME E O SEU CONTEXTO……………………………………………………….. 02
3 A SANTA VEHME EM AÇÃO: OS TRIBUNAIS FÊMICOS………………………………… 06
4 O GRAU 31 DO R\ E\ A\ A\ E SEU TRIBUNAL………………………………………… 07
4.1 O Tribunal do Grau 31 – missão e finalidade………………………………………………… 07
4.2 O Tribunal do Grau 31 – organização………………………………………………………….. 08
4.3 O Tribunal do Grau 31 – funcionamento………………………………………………………. 09
5 CONCLUSÃO……………………………………………………………………………………………… 10
6 REFERÊNCIAS…………………………………………………………………………………………… 12


1 INTRODUÇÃO

Desconfiamos que o formulador do título deste trabalho tivesse a intenção de promover um estudo do Grau 31, contemplando origens e motivações históricas que determinaram a inclusão desse grau na senda dos 33 graus do Rito Escocês, mas a formulação adotada nos remete, textualmente, a dois objetos distintos: a Santa Vehme, com seus Tribunais Fêmicos, de um lado, e o Tribunal Maçônico do Grau 31, de outro. Talvez esse procedimento deva-se à intenção velada de não sugerir a existência de vínculo maior do que a mera precedência histórica do Tribunal Medieval, enquanto esforço de instituição de justiça regular entre os homens.

De qualquer modo, para entender o vínculo que o Ritual do Grau 31 confere a essas instituições separadas no tempo por meio milênio, devemos, primeiramente, situar a Santa Vehme e seus Tribunais no tempo e no espaço e tentar resgatar algo de sua história. Descortinamos aqui uma tarefa difícil, tendo em vista tratar-se de um país distante, de língua que nos é estranha, referir-se a um período obscuro da história, anterior ao descobrimento da imprensa móvel, e, sobretudo, por tratar-se de assunto de interesse bastante restrito.

Em seguida, vamos examinar o Tribunal Maçônico do Grau 31, sua estrutura constitutiva e seu funcionamento e, sobretudo, a filosofia que o norteia.

No final, esperamos poder apresentar apreciação crítica sobre o exercício da justiça no âmbito maçônico e, também, sobre a vinculação histórica que o Ritual formalmente estabelece.

Como resultado final, esperamos desenvolver compreensão sobre a inclusão do Grande Tribunal na senda dos 33 graus do Rito e descortinar o papel que lhe cabe na constituição da Ordem e na formação dos obreiros.

2 A SANTA VEHME E O SEU CONTEXTO

A Santa Vehme foi uma instituição justiceira que surgiu em território germânico durante o chamado 1o Reich (1o Império), mais conhecido como Sacro Império Romano Germânico. Este estendeu-se do século VIII até 1806, quando foi extinto por exigência de Napoleão. Até chegar a atual República Democrática da Alemanha do pós-Segunda Guerra (1945), a saga do povo alemão contempla mais duas fases intermediárias: o Império Alemão, também chamado de 2o Reich, que se estendeu de 1871 a 1918, no qual se destacam duas eras: a de Bismarck e a de Guilhermina, tendo sido esta última findada com o advento da República de Weimar; e o período nazista, que pretendia instituir o 3o Reich, mas que, pelas razões conhecidas de todos os adultos de hoje, durou apenas 12 anos, de 1933 a 1945.

Em termos cronológicos, parece razoável situar o início do Sacro Império Romano Germânico em 962, com a sagração, pelo Papa João XIII, do Rei Germânico Oton I como Imperador. O seu final está bem estabelecido em 1806, em face dos resultados das Guerras Napoleônicas. Em termos geográficos, embora no período áureo o Império (séc. X e XI) tivesse abrangido grande parte da Europa, envolvendo parte da França e da Itália, seu núcleo central sempre foi a região que, atualmente, corresponde ao território da Alemanha. A área de influência do Império variou muito nesse período, do mesmo modo como também variou a designação oficial do Império. No século XI, recebeu a denominação de Império Romano; no século XII, de Sacro Império e somente no século XIII recebeu o nome de Sacro Império Romano Germânico. No século XV, passou a chamar-se Sacro Império Romano da Nação Germânica.

Apesar do nome pomposo e de representar nitidamente uma tentativa de restabelecimento do Império Romano do Ocidente, que sucumbiu em 476, em nenhum momento dos seus mil anos de existência, o primeiro império alemão esteve próximo de ostentar o brilho e o poder do Império Romano do Ocidente. De fato, ele nunca chegou a exercer um poder efetivamente imperial sobre o seu território, de sorte que nos parece extremamente apropriada a síntese crítica de um escritor francês do século XX, segundo o qual o Sacro Império Romano Germânico não era nem sacro, nem império e muito menos romano.

Uma das razões apontada pelos historiadores para essa dificuldade do Imperador em impor a sua vontade era a índole independente dos diferentes grupos étnicos que compartilhavam a língua germânica (godos – visigodos e ostrogodos –, vândalos, alanos, burgúndios, suérvos e francos) e que resistiam à ideia de ceder muito poder para um governo central. O modelo feudal de vassalagem e de concessão de feudos ensejava também a descentralização do poder político, e a própria formação de exércitos dependia desse modelo e do cumprimento dos acordos de vassalagem. Em largos períodos, a conquista do título de imperador decorria de eleição entre um colegiado composto pelos mais fortes príncipes e cardeais do território que, naturalmente, negociavam seu voto em troca de poder.

Somem-se a isso a extensão territorial e a precariedade organizacional e administrativa da corte imperial e temos plenamente justificada a fragilidade estrutural do Império. Curiosamente, porém, isso contradiz a sua longevidade.

Para entender essa longevidade, devemos retroceder à divisão do Império Romano em Império do Oriente e Império do Ocidente, que se deu pela primeira vez com Deocleciano, em 284, e depois, definitivamente, por Teodócio (379-395). Em 325, com o Concílio de Niceia, a história sofre uma inflexão: não apenas se estabelecem os chamados cânones da Igreja, vencendo uma das duas facções que se digladiavam no seu interior, tentando fazer prevalecer a orientação doutrinária que preferiam, com prejuízo da espiritualidade e vitória de uma linha pragmática que antevia uma estrutura de poder; mas também, sob o patrocínio do Imperador Constantino, o Cristianismo torna-se religião oficial do Estado imperial, unificam-se as diferentes correntes doutrinárias e litúrgicas do Cristianismo inicial e emerge uma estrutura organizativa de formato imperial, como convinha a um império sequioso de se preservar. Ações efetivas do Estado imperial promovem o prestígio popular e a consolidação da Igreja Católica, mediante a devolução de propriedades confiscadas nos anos de perseguição e a participação da igreja em programas sociais e de distribuição de alimento. Além disso, o próprio Imperador declara-se cristão. Estabelece-se, dessa forma, no Ocidente, a doutrina que já tinha sido vitoriosa no Egito Imperial, de duas colunas complementares de poder, uma espiritual e outra temporal, dando sustentação ao ordenamento social. Em razão do destaque dos bispos de Roma e, com a consolidação da figura do Papa, a chefia da Igreja não fica no Oriente como seguramente o Imperador bizantino teria preferido, mas se estabelece em Roma.

Com a invasão dos visigodos que, em 410, chegaram a saquear Roma, mas principalmente com a invasão dos unos que, já em 406, forçaram uma grande migração das tribos germânicas em direção ao Ocidente, Roma começou a se sentir acuada. De um lado, o Império Bizantino, negociando com visigodos e unos para salvar a pele, reorientando seus interesses de saque para Roma. De outro, a presença dos bárbaros germânicos que, somente não eram problema mais grave, porque muitos haviam pertencido ao Império Romano, havendo até quem ainda reconhecesse a autoridade bizantina. De outro lado, a presença dos temidos unos estabelecidos no território que, atualmente, pertence à Hungria. Isso levou Roma a fazer uma aliança temporária com os povos germânicos e, com isso, conseguir repelir a primeira investida dos unos, já chefiados por Átila, em 451. No ano seguinte, os unos voltaram a saquear a Gália e se dirigiram diretamente a Roma. O papa Leão I, o Grande (440-461), conseguiu negociar com Átila que, surpreendentemente, aceitou a oferta e se retirou da Itália. Dois anos depois, Átila morre subitamente em noite de núpcias, e os unos se dispersam.

O Império Romano do Ocidente termina oficialmente, em 476, nas mãos de bárbaros (hérulos e godos) que serviam como mercenários em Roma e se revoltaram quando o Imperador Rômulo Augustulo (475-476) lhes negou certas reivindicações. A queda do Império aprofundou uma diáspora de famílias romanas tradicionais e de comandantes militares para o interior (ruralização da economia e da sociedade), ensejando o surgimento do sistema feudal. O Império Romano do Oriente continua existindo até a queda de Constantinopla nas mãos dos turcos, em 1453, sem forças para mais do que meramente sustentar-se e sem qualquer possibilidade de expansão. O Imperador Bizantino, naturalmente, continuou a se imiscuir nas questões da Igreja por achar que esse era o seu direito, mas em Roma nem todos os papas achavam que ainda lhe cabia tal prerrogativa.

Quando, no século IX, o sistema feudal assume contornos definitivos, enseja certa concentração de poder nos feudos mais bem-sucedidos, desaparecem os últimos vestígios do modelo escravagista romano de produção e o próprio modelo de concessão feudal torna-se mais complexo, tanto em concessões de segunda ordem, como em concessões para bispos e para homens livres, surge a oportunidade de nesse momento o poder espiritual patrocinar o soerguimento do poder temporal no Ocidente. O primeiro movimento dá-se com a sagração, pelo papa Leão III, do Rei Germânico Carlos Magno como Imperador, em 800, e se consolida, em 962, com a sagração do Rei Germânico Oton I.

A Igreja era a maior interessada na criação do Sacro Império Romano Germânico. De um lado, tratava-se de manter o modelo das duas colunas de poder temporal e espiritual que acabou prevalecendo em toda a Idade Média. Em segundo lugar, tratava-se de a Igreja livrar-se da relação com o Império Oriental em que ocupava uma posição subalterna e relacionar-se com outro império em que detinha posição superior, dado que era o papa que sagrava os imperadores. Finalmente, embora o período de invasão dos bárbaros vindos do norte tivesse terminado, havia a expansão árabe-islâmica do outro lado do Mediterrâneo que já havia engolido com a maior facilidade o Império Persa e que se colocava como alternativa e concorrente do Cristianismo. Somente nessa perspectiva é que se compreende como, apesar da sua fragilidade, o Sacro Império Romano Germânico sobreviveu por tanto tempo.

Nesse contexto, certos autores, inclusive maçônicos, sugerem que a Santa Vehme tenha surgido em 772, quando o rei Carlos Magno (768-814) criou, em Wetfália, um tribunal secreto destinado a enfrentar a desordem e o vandalismo crescentes que o reinado não tinha meios de enfrentar. Na prestigiosa publicação Larousse (2008), Signier defende, porém, que a confraria da Vehme tenha surgido apenas depois da morte do Imperador Conrado IV, em 1254, quando se inicia, para o Sacro Império, um período de anarquia política que durou vinte anos. O próprio Ritual informa que a Santa Vehme impôs-se no período do século XII ao século XIV, tendo seu auge nos séculos XIV e XV (sic).

O que se sabe com certeza é que o Imperador Ruperto, o Breve, concedeu-lhe estatuto oficial em 1404 e que o último tribunal encerrou atividades em 1568. Também é sabido que a Santa Vehme se enfraqueceu com Maximiliano (1493-1519) e com Carlos V (1519-1556). De outro lado, consta de documento oficial de 1256 que o papa Inocêncio IV teria se pronunciado favorável ao uso de tortura para conseguir confissões. Também parece relevante considerar que, no século XIII, a Igreja criou o Tribunal do Santo Ofício para julgar quem se insurgia contra a autoridade papal. Tais dados deixam-nos incertos quanto à localização exata da Vehme no tempo, mas as circunstâncias geopolíticas nos sugerem que o recrudescimento da ação coercitiva do Estado decorre sempre do crescimento dos riscos de sobrevivência do status político. Parece não restar dúvidas de que, na ocasião, tanto a Igreja como os senhores feudais tinham fortes interesses nessa empreitada e que tais tribunais decorriam, sobretudo, de motivações políticas.

3 A SANTA VEHME EM AÇÃO: OS TRIBUNAIS FÊMICOS

A palavra Vehme deriva do termo holandês veem, que significa corporação ou associação. Formalmente, a Santa Vehme pretende agir em nome da Santa Sé e do Sacro Império. Opera mediante tribunais secretos compostos por magistrados urbanos, membros da nobreza e camponeses livres. A assembleia dos tribunais é, normalmente, composta por quatorze juízes – sete nobres e sete burgueses.

Os processos e as deliberações são mantidos em completo segredo, e há pouca esperança de que um convocado para comparecer perante esse tribunal de exceção escape da sentença.

A pessoa suspeita de um delito é convocada solenemente para comparecer perante o tribunal e dispõe de seis semanas para organizar sua defesa, convocando testemunhas. Na maioria dos casos, porém, é a tortura que prevalece para se obter confissões. Com essa descrição, na publicação Larousse (2008), Signier configura claramente o regime de terror que vigorou na Alemanha enquanto a Santa Vehme esteve em ação.

Segundo o Ritual, constituíam competência dos tribunais fêmicos os delitos de 1. abjuração da religião cristã; 2. violação e profanação de igrejas e cemitérios; 3. usurpação do poder do soberano imperador; 4. violência contra mulheres grávidas, doentes e mercadores; 5. roubo, furto, assassinato e incêndio. Alguns escritores acrescentam a heresia, a magia e os delitos contra o Decálogo e o Evangelho.

Essa descrição de competências indica claramente a primazia dos interesses políticos, muito embora os objetivos de manter a paz e a ordem possam ter sido usados como justificativas oficiais e também tivessem, provavelmente, existido bandidos, crimes e desordens localizadas justificadoras de ações coercitivas em nome do bem-estar geral. Ainda que tivesse havido intenções de efetivamente distribuir justiça, o caráter secreto desses tribunais já determinava, estruturalmente, o seu contingente desvirtuamento no tempo para atender a interesses mesquinhos e particulares, mas isso, aparentemente, não constituiu preocupação dos seus idealizadores ou, então, a situação era tão desesperadora que isso constituía um risco ou um custo assimilável.

4 O GRAU 31 DO R. E. A . A . E SEU TRIBUNAL

Para conquistar compreensão suficiente do Tribunal Maçônico instituído no Grau 31, vamos examinar a sua finalidade formal declarada no Ritual e no Regulamento da Ordem. Depois, examinar a sua organização e o seu funcionamento.

4.1 O Tribunal do Grau 31 – missão e finalidade

O Ritual refere-se ao Tribunal Maçônico como Tribunal do Grau 31, como Soberano Tribunal e como Grande Tribunal. Seu objetivo supremo é a aplicação da justiça e da equidade. Seu objetivo textual é “velar para que nenhum Irmão, seja de qual for o grau, afaste-se de seus deveres maçônicos; impedir os crimes e as contravenções da lei maçônica e reprimir abusos”. Na página 24 do Ritual, consta ainda ser sua missão precípua “pronunciar-se sobre todas as questões litigiosas que o Supremo Conselho julgue por bem confiar-lhe”.

Apesar desse dispositivo da página 24 e da expressão contida na página 34, que afirma que o Tribunal “concentra as funções jurídicas da Ordem”, no Regulamento Geral para os Órgãos e Corpos Subordinados do Supremo Conselho do Brasil do Grau 33 para o Rito Escocês Antigo e Aceito apenas consta, no artigo 83, que as Oficinas Litúrgicas funcionarão como tribunal de primeira instância, e o artigo 86 assegura ao condenado recurso ao Sacro Colégio, não existindo qualquer menção ao Tribunal do Grau 31.

Apesar disso, consta do Regimento Interno do Mui Poderoso Consistório do Real Segredo no 50.016, no artigo 27, IV, ser de sua competência: “Processar seus membros de qualquer categoria, funcionando como tribunal, por delegação especial de poderes da Delegacia Litúrgica”, sem que essas competências sejam precipuamente atribuídas ao Tribunal do Grau 31.

Tais constatações levam-me a concluir que o Tribunal Maçônico possui de fato apenas atribuições litúrgicas e educativas, sem poder efetivo de ministrar justiça ao povo maçônico, muito embora uma sessão de julgamento do Consistório, em primeira instância, possa ser realizada na Ordem do Dia de uma sessão de Grau 31.

4.2 O Tribunal do Grau 31 – organização

O Tribunal é chefiado por um Perfeitíssimo Presidente, que leva o título de Franco Conde, e a sessão exige ainda a participação mínima de um 1o e um 2o Franco-Juízes, de um Procurador-Geral, de um Escrivão, de um Preboste como Mestre de Cerimônias e de um Guardião, na função de porteiro. Os Grandes Inspetores Inquisidores Comendadores completam a Assembleia.

A base filosófica e o conjunto de conceitos que devem nortear as atividades do Grande Tribunal e o julgamento dos Verdadeiros Juízes possuem presença ostensiva no recinto, na forma de cinco símbolos, que são colocados em posição de destaque para que em nenhum momento o Tribunal deles se afaste.

O primeiro símbolo é representado pela estátua de Têmis, a deusa da Justiça, que é representada de olhos vendados, com o pé direito sobre o livro precário das leis dos homens, a balança na mão esquerda e a espada na mão direita. O seu rico significado é bastante conhecido, tendo em vista que a mesma deusa tem sido usada para simbolizar a justiça profana.

O segundo símbolo é o Painel do Grau que retrata o chamado Julgamento de Osíris, na forma concebida ainda no Egito Imperial, e descreve a cena do morto sendo recebido no Tribunal de Osíris para julgamento do estado de evolução de seu coração, em face de sua confissão e de seu aprendizado no estágio de vida na Terra. De acordo com o resultado desse julgamento, a alma do defunto, em caso de condenação, será comida pela fera, também representada no painel, ou, em caso de absolvição, será assimilada à alma de Osíris.

O terceiro símbolo é o Corvo que, segundo o Ritual, representa a ave de maior inteligência, prudência e memória.

O quarto símbolo é o Decálogo, representado por 10 estrelas dispostas em quatro linhas de uma, duas, três e quatro estrelas, formando do topo para a base uma pirâmide ou triângulo equilátero. Na página 35, o Ritual informa expressamente que o Decálogo lembra a primeira lei dada por Deus ao homem.

O quinto símbolo é composto por duas colunas, suportando as letras J e E, indicando que, nesse Tribunal, ministra-se justiça com equidade.

A menção a Verdadeiros Juízes busca indicar que se tratam todos de magistrados iniciados e que é em razão dessa característica que o Tribunal pode efetivamente ministrar justiça com equidade, em padrão que estaria fora das possibilidades de um tribunal profano. Isso, porém, já extravasa o aspecto organizativo e remete-nos ao plano de funcionamento do Grande Tribunal.

4.3 O Tribunal do Grau 31 – funcionamento

Deixando de lado o aspecto ritualístico da sessão do Grau 31, que está sequencialmente especificado no Ritual, concentremo-nos no funcionamento de um Tribunal Justo e Perfeito como pretendido pelo Grande Tribunal.

Além de declarar o objetivo de aplicação da justiça com equidade, o Ritual também esclarece, na página 33, que, para Verdadeiros Juízes, “Justiça é a Verdade em ação” e que “o Direito Natural se sobrepõe ao escrito pelos homens”. Com isso, fica estabelecida a plataforma a partir da qual os Verdadeiros Juízes posicionam-se para o trabalho e conseguem o resultado de excelência pretendido.

Não apenas é necessário combinar sabiamente justiça com equidade, contemplando sempre todos os aspectos que contextualizam os fatos, como também é indispensável priorizar devidamente a Lei Natural para lograr tal resultado. Não pode, portanto, ser um Verdadeiro Juiz quem não conheça a Verdade, isto é, domine e entenda corretamente essa Lei Natural.

Onde está especificada essa Lei Natural? No Decálogo que compõe o quarto símbolo que ornamenta o Tribunal. Ali o Decálogo é representado por dez estrelas dispostas em forma piramidal. Esse Decálogo não nos deve remeter aos 10 mandamentos de Moisés, mas sim à Dédaca Sagrada de Pitágoras: a famosa Tetractis, sobre a qual os pitagóricos prestavam o seguinte juramento: “O juro por Aquele que transmitiu à nossa Alma, a Tetractis na qual se encontram as nascentes e a raiz da eterna Natureza” (DA CAMINO, 1982, p. 33).

Pitágoras retratava a Tetractis com uma equação matemática de formato 1 + 2 + 3 + 4 = 10, rigorosamente fiel e simétrica à representação piramidal adotada no Grande Tribunal, e entendia que assim estava bem representado o conjunto de leis universais responsáveis pela constituição do mundo. Como é sabido, para Pitágoras, o número não indicava apenas o quantitativo, mas, sobretudo, lei, norma, razão, proporção etc.

Com isso, fica especificado o que um Grande Inspetor Inquisidor Comendador precisa saber para ser um Verdadeiro Juiz e o que o Grande Tribunal precisa para atingir a excelência projetada.

5 CONCLUSÃO

Não há dúvida: o Ritual estabelece textualmente ligação do Tribunal Maçônico do Grau 31 com os Tribunais Fêmicos da Idade Média. Essa relação não possui, entretanto, segundo entendemos, o sentido de continuidade de uma prática exemplar em distribuição de justiça.

O Rito Escocês Antigo e Aceito em toda a senda de 33 graus apenas uma única vez, no Grau 26, admite o emprego da força para acabar com o despotismo. No restante, predomina uma orientação conciliadora e recurso a uma justiça regularmente estabelecida para dirimir as diferenças. A opção do conflito e do enfrentamento, tanto quanto a solução da cisão, tentada insistentemente desde Caim e Abel, já demonstrou suficientemente sua ineficácia.

Por outro lado, o próprio simbolismo inserido na liturgia do grau evidencia que o tido em mente pelos idealizadores do Grande Tribunal era um Tribunal verdadeiramente justo composto por magistrados iniciados, aptos a identificar a verdade e, portanto, capazes de ministrar justiça com equidade.

Para alcançar tal grau de excelência, sequer os limitam à obediência da letra da lei humana, mas os autorizam a considerar acima dela os ditames da Lei Natural, supostamente capaz de superar virtuais inadequações da lei escrita nos casos concretos.

Essa filosofia afasta-se diametralmente da ideia de um tribunal de exceção, como somos forçados a classificar os Tribunais Fêmicos. O contexto geopolítico que emoldura a presença da Santa Vehme, em largas pinceladas descrito na primeira parte deste trabalho, evidencia que não eram preocupações com o bem-estar geral das populações que motivavam os lances políticos medievais, como tampouco são tais preocupações que norteiam boa parte dos lances políticos da atualidade. Hoje, porém, contamos com uma justiça regularmente estabelecida que, embora seja profana e, portanto, esteja sujeita às imperfeições da lei escrita, não pode operar na clandestinidade. Quando isso eventualmente acontece, temos os esquadrões da morte, os grupos de extermínio, as “polícias mineiras” etc.

Longe disso, o Grande Tribunal introduz no aprendizado escocês um necessário momento de reflexão a respeito da justiça e do papel que lhe cabe desempenhar na construção da sociedade humana idealizada pela Maçonaria.

Na busca da perfeição maçônica preconizada pelo Rito Escocês, o Grau 31 oportuniza essa consideração da justiça, alerta-nos que Verdadeiros Juízes não podem prescindir do pleno domínio da Lei Natural e fornece-nos o alicerce mais consistente para o exercício da justiça, porque nos revela como a Natureza se constitui e se desdobra em estágios de crescente organização e complexidade até gerar a vida e a inteligência. A lição subjacente é que não conseguiremos ser justos e equânimes se não conhecermos e dominarmos as leis que regulam a Natureza e respondem pela constituição da vida.

Daí a importância da Tetractis, do Logos, do Verbo, do resgate da Palavra Perdida, capaz de nos instrumentalizar com um paradigma que nos habilite a compreender o mundo e a condição humana.

Abril 2010/RGR


6 REFERÊNCIAS

DA CAMINO, Rizardo. Dicionário maçônico. Rio de Janeiro: Aurora, 1990. 641 p.

______. O ápice da pirâmide. Literatura Maçônica. Rio de Janeiro: Aurora, 1982. 299 p.

KOSHIBA, Luiz. História: uma leitura da história ocidental para o Ensino Médio. São Paulo: Atual, 2000. 493 p.

MILITZER, Klaus. Alemanha na Baixa Idade Média: feudalismo e cavalaria. Ruhr Universitét Bochum. Tradução: Álvaro Alfredo Bragança Júnior. Rio de Janeiro: UFRJ.

PAGELS, Elaine. Além de toda crença: o Evangelho desconhecido de Tomé. Tradução: Manoel Paulo Ferreira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

SIGNIER, Jean-François. Sociedades secretas, Vol. III – Sociedades secretas políticas. Tradução: Ciro Mioranza. Larousse, 2008. 239 p.

SUPREMO CONSELHO DO BRASIL DO GRAU 33 PARA O RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO. Regulamento geral para os corpos subordinados. Campo de São Cristóvão, Rio de Janeiro, 2009. 35 p.

______. Ritual do Grau 31. Campo de São Cristóvão, Rio de Janeiro, 2007. 52 p.

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